30.1.12

Temos de ser todos um pouco escritores...







" ... o escritor é um ser que deve estar aberto a viajar por outras experiências, outras culturas, outras vidas. Deve estar disponível para se negar a si mesmo.
Porque só assim ele viaja entre identidades. E é isso que um escritor é – um viajante de identidades, um contrabandista de almas. Não há escritor que não partilhe dessa condição: uma criatura de fronteira, alguém que vive junto à janela, essa janela que se abre para os territórios da interioridade."

in QUE ÁFRICA ESCREVE O ESCRITOR AFRICANO?, Mia Couto em Pensatempos, Caminho, 2005 



Não temos de ser todos um bocadinho escritores? Ou pelo menos tentar?

26.1.12

Não gosto de bimbólicas...



O que me irrita ir à procura de uma receita na net e só me aparecem receitas com instruções para a bimby

exemplo:
"Deite 1,500kg de água no copo, tempere com sal e programe a 100ºC, na velocidade SanftrührstufeLinkslauf durante 10 minutos ou até começar a ferver. Encaixe depois a Borboleta, junte a massa e programe a 100ºC, durante 15 minutos, novamente na velocidade Sanftrührstufe Linkslauf. Retire do copo, deite no Cesto de Escorrer, passe por água fria e deixe escorrer....velocidade 5 ....

Uma linguagem de ET's, onde falta amor e carinho. Eu gosto de cozinhar da maneira tradicional...

Essa máquina caríssima não me convence... E as moçoilas que são fanáticas desta tribo...não aguento...


Um dia até me posso render (se alguém me oferecer, claro), mas enquanto isso não acontece,  resisto e digo mal :P

23.1.12

Cartazes de guerra...e sonho...







E ontem a tarde foi dedicada à imagem…e decorreu lá para os lados de Belém.

Primeiro fui ver a exposição “A Arte da Guerra — Propaganda da II Guerra Mundial”. Debruça-se sobre os cartazes de propaganda utilizados em tempo de guerra. Muito interessante a forma como a mensagem era passada, pela quantidade sem precedentes em que foi produzida, mas acima de tudo pela forma de arte que ela assumiu, cumprindo com o objectivo de uma qualquer outra obra de arte: provocar emoções nas pessoas e mudar o mundo. Estes cartazes são particularmente emotivos e há para todos os gostos: sobre o inimigo (os japonês aparecem sempre com ar de demónio, com olhos em bico e os dentes-favolas muito grandes), sobre o racionamento de alimentos e outros bens, sobre o incentivo ao trabalho, etc…
Até achei que alguns podiam ser muito bem adaptados à actualidade. A exposição vai estar no Museu Bernardo – CCB até 8 Fevereiro. Recomendo!


Depois, fui ao Museu da Electricidade ver a Bienal Internacional de Ilustração para a Infância, que mobiliza consagrados ilustradores e novos criadores do  fabuloso mundo da literatura infantil ilustrada.
Ficou foi a doer-me a mão de tanto abrir as gavetas onde estavam as ilustrações ...

22.1.12

3a secretária...

E a  partir de ontem faço parte da direcção da ONG onde costumo ser voluntária...Medo...agora é que vai ser trabalhar e ter de ajudar a tomar decisões difíceis...

19.1.12

Amor burguês....

 "Havemos de engordar juntos.
Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a barra que diz "cliente seguinte", estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os iogurtes, têm medo de pagar o fiambre daquele que está atrás. Enquanto não marcam essa divisão, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece na caixa do supermercado, naqueles minutos em que um está a pôr as compras no tapete rolante e, na outra ponta, o outro está a guardá-las nos sacos.

As canções e os poemas ignoram isto. Repetem campos, montanhas, praias, falésias, jardins, love, love, love, mas esse momento específico, na caixa do supermercado, tão justo e tão certo, é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das lâmpadas fluorescentes, há o barulho das caixas registadoras, pim-pim-pim, há o barulho das moedas a caírem nas gavetas de plástico, há a musiquinha e os altifalantes: responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12, responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12; mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza nuclear desse momento.

É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Viver é muito diferente de ver viver. Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe. Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.

Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.

As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.

Havemos de engordar juntos.

Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas. Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.

Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.

E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.

Nós acreditávamos.

Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho."
 
José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro, 2012) e aqui

Este texto é mesmo muito bom, tinha de partilhar...

18.1.12

Manifesto sobre as Bibliotecas Públicas...

"Manifesto da UNESCO sobre Bibliotecas Públicas 

A liberdade, a prosperidade e o progresso da sociedade e dos indivíduos são valores humanos fundamentais. Só serão atingidos quando os cidadãos estiverem na posse das informações que lhes permitam exercer os seus direitos democráticos e ter um papel activo na sociedade. A participação construtiva e o desenvolvimento da democracia dependem tanto de uma educação satisfatória como de um acesso livre e sem limites ao conhecimento, ao pensamento, à cultura e à informação. 
A biblioteca pública-porta de acesso local ao conhecimento -fornece as condições básicas para a aprendizagem ao longo da vida, para uma tomada de decisão independente e para o desenvolvimento cultural do indivíduo e dos grupos sociais. 
Este Manifesto proclama a confiança que a UNESCO deposita na Biblioteca Pública, enquanto força viva para a educação, cultura e informação, e como agente essencial para a promoção da paz e do bem-estar espiritual através do pensamento dos homens e mulheres. Assim, a UNESCO encoraja as autoridades nacionais e locais a apoiar activamente e a comprometerem-se no desenvolvimento das bibliotecas públicas. "



Hoje fui fazer o cartão das redes de bibliotecas municipais de Lisboa...Agora é que vai ser ler livrinhos, sem gastar um tostão. Dando uma volta rápida nas estantes já deu para perceber que vou ler livros que nunca compraria, abrindo assim o leque de géneros...
Gosto mesmo de serviços públicos de qualidade. Vou ficar amiga da bibliotecária. ;)



PS - agora veio-me à cabeça as carrinhas da Gulbenkian que iam à terrinha duas vezes por mês quando eu era criança...um dia faço um post sobre isso...